Sinopse

A coletânea Gótico Americano, publicada pela Editora Pandorga, é uma verdadeira viagem pelas sombras do gênero gótico, reunindo autores consagrados e alguns menos conhecidos para explorar temas como morte, vício, culpa, paixão e o lado oculto da natureza humana.

Com histórias que percorrem diferentes países e sensibilidades, do mórbido latino-americano à melancolia puritana estadunidense e o sarcasmo brasileiro,  a antologia mostra o quão diverso e fascinante pode ser o gótico no continente americano.

“(...) todos os efeitos que o gótico pode proporcionar: o medo, o horror, a beleza e a contemplação da melancolia e da obscuridade, bem como todos os assuntos inerentes ao próprio continente americano, como colonização, questões raciais, socioeconômicas e de gênero.”


Um passeio pelas trevas: gótico além da Inglaterra

Quando pensamos em “gótico”, logo surgem castelos medievais, tempestades na Cornualha e heróis atormentados das páginas britânicas. Mas Gótico Americano nos lembra que o gênero se reinventou ao atravessar o Atlântico.

Aqui, os cenários são florestas impenetráveis, cidades decadentes e campos rurais, e os terrores são igualmente íntimos e universais: vícios, religiosidade opressiva, desigualdade social, morte e culpa.

“Sendo assim, o próprio gênero gótico não foi um fenômeno estanque, que se engessou e se congelou no tempo. Pelo contrário, ele evoluiu de diversas formas e adaptou-se a diversos contextos sócio-históricos, tornando-se uma obscura e complexa reação a diferentes processos da modernidade, como experienciados em diferentes partes das Américas.”


Meus contos favoritos


O Inferno Artificial
– Horácio Quiroga

Um conto pesadíssimo e brilhante, onde o gótico se mistura com o realismo para falar de vícios e perdas. Quiroga, conhecido como o “Poe da América Latina”, traz uma atmosfera sufocante e um estilo que mistura beleza e desespero. Aqui, o gótico não é apenas um estilo literário, mas uma lente para olhar os demônios internos e as tragédias humanas.

"Afinal, envenenado até o mais íntimo do meu ser, abarrotado de torturas e fantasmas, convertido num trêmulo despojo humano; sem sangue, sem vida - miséria para quem a cocaína emprestava dez vezes por dia uma radiante fantasia para logo mergulhar num estupor cada vez mais profundo. Afinal, um resto de dignidade, me atirou num sanatório, e me entreguei amarrado aos pés e mão à cura." 


O Véu Negro do Pastor e A Marca de Nascença – Nathaniel Hawthorne

Dois clássicos que revelam o talento de Hawthorne em explorar a culpa, o pecado e a moralidade puritana.

  • O Véu Negro do Pastor: um símbolo simples (o véu) se torna fonte de mistério, medo e especulação, expondo como a sociedade projeta seus próprios pecados em figuras públicas.
“Quando um amigo for capaz de demonstrar seus sentimentos mais íntimos a outro amigo, o amado a sua amada, quando o homem não se encolher em vão diante dos olhos do Criador, entesourando repugnantemente o segredo de seu pecado, então, poderão me considerar um monstro pelo símbolo sob o qual vivi e morri. Olho ao meu redor, e eis que vislumbro sobre cada rosto, um véu negro igual ao meu!”
  • A Marca de Nascença: um conto quase de ficção científica, onde a busca pela perfeição leva a consequências trágicas. Uma reflexão sobre ciência, natureza e a arrogância humana. Em alguns sentidos, me lembrou muito o que Mary Shelley fez em Frankenstein.

“Sinto-me plenamente apto a tornar a face que traz a marca tão perfeita quanto a outra, e então, minha amada, quão grande não será meu triunfo quando ouvir corrigido o que a Natureza deixou imperfeito em sua mais bela obra! Mesmo Pigmaleão, quando a mulher que esculpiu assumiu a vida, não sentiu um êxtase maior que há de ser o meu.”

A busca para dominar a Natureza, e a perfeição num nível quase divino, não o deixaram notar a felicidade que já tinha diante de si… 

John Collier (1850-1934) The Laboratory, 1895

“(...) se Alymer tivesse alcançado uma sabedoria mais profunda, não precisaria ter jogado fora a felicidade que teria tecido sua vida mortal da mesma textura que a celestial. A circunstância momentânea foi forte demais para ele, que falhou em olhar além do sombrio escopo do tempo e, vivendo uma vez na eternidade, deixou de encontrar o futuro perfeito no presente.”



Sem Olhos
– Machado de Assis

Machado, sempre mordaz, leva sua habilidade para o terreno do fantástico. Em Sem Olhos, temos um terror psicológico com pitadas de ironia. No romance ou no terror, Machado não resiste a um par de olhos, e aqui transforma o olhar (ou a ausência dele) em elemento perturbador:

 "Quieta podiam pô-la num altar; mas, se movia os olhos, era pouco menos que um demônio."

É o gótico brasileiro em sua melhor forma: elegante, enervante e com críticas sociais sutis.


Outros contos e autores

A coletânea ainda reúne nomes como Edgar Allan Poe, Augusto dos Anjos, Henry James e autores menos conhecidos do público brasileiro, oferecendo uma excelente porta de entrada para o gênero e uma coletânea que permite ao leitor conhecer novos autores ou redescobrir conhecidos sob outra luz. Alguns contos podem não agradar tanto, mas a experiência como um todo é enriquecedora. O maior problema da coletânea, ao meu ver, é não possuir nenhuma autora mulher.

Mas, é um convite para refletir sobre o lado obscuro das Américas e sobre como o gótico, em qualquer época, nos força a olhar para o que evitamos, dentro e fora de nós mesmos.

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