Tlön, Uqbar, Orbis Tertius – Borges: um conto ou um labirinto de ideias entre realidade e ficção?

                                

Sinopse

Publicado pela primeira vez em 1940, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é um dos contos mais conhecidos de Jorge Luis Borges e uma obra-prima da literatura fantástica e filosófica. A narrativa começa quase casualmente, com Borges e um amigo discutindo uma estranha entrada enciclopédica sobre um país inexistente, Uqbar.

A partir daí, o leitor é arrastado para uma espiral de descobertas sobre Tlön, um planeta fictício cuja cultura, filosofia, matemática e até física seguem lógicas completamente diferentes das nossas. 

Escrito no período entre as duas guerras mundiais (maio de 1940 na revista argentina "Sur"), o conto também reflete uma ansiedade cultural: o medo de que ideologias e sistemas de pensamento possam reconfigurar a realidade de maneira irreversível. Orbis Tertius pode ser lido como uma alegoria para regimes totalitários, que “reinventam” a história e a realidade conforme suas ideologias.

Além disso, Borges estava inserido em um momento de grande efervescência literária e filosófica na Argentina e no mundo. Seu trabalho dialoga com o modernismo europeu, mas também antecipa temas da pós-modernidade, como o questionamento da verdade objetiva, o papel da linguagem na construção da realidade e a fragmentação do conhecimento.


Minhas impressões:

Li o conto em um clube de leitura, e minha primeira impressão não foi das melhores. Mas, mesmo assim, foi impossível negar: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é extremamente interessante pelo volume de informações, referências e citações que Borges traz. Ele cria uma enciclopédia de um mundo fictício tão detalhado que parece real, com filosofia idealista, línguas sem substantivos, uma física própria e uma metafísica que faz o leitor questionar os limites entre o “real” e o “imaginário”.

Mas, ao mesmo tempo, preciso dizer que o estilo narrativo não me agradou. A prosa densa e enciclopédica, repleta de termos acadêmicos e listas de referências, acabou tornando a leitura maçante em alguns momentos. É como se eu admirasse o engenho e a erudição da obra, mas sentisse dificuldade em me envolver com ela. É um daqueles textos que exigem uma atenção absoluta e que, talvez, sejam mais fascinantes de analisar do que de ler por prazer.

Mas uma coisa é certa, foi uma leitura que ocupou espaço nos meus pensamentos, difícil de esquecer. E algumas semanas após a leitura, posso dizer que vale muito a pena, além de ter instalado em mim a vontade de ler mais coisas do Borges.

Alquimia e a ideia de que “Tudo é mental”


Aqui eu posso ter divagado demais, mas nesse sentido, o conto também pode ser lido à luz de um dos princípios da Alquimia Hermética, que afirma que “Tudo é mental”. Tlön é a materialização desse princípio: um mundo fictício tão minuciosamente concebido que começa a substituir a realidade concreta. A mente, por meio da linguagem e da crença coletiva, molda o mundo. Borges parece explorar essa ideia ao mostrar que o que é pensado e narrado com suficiente coerência e profundidade pode se tornar mais “real” do que o próprio mundo físico. Assim como o alquimista transmuta matéria a partir do espírito, Tlön transmuta a realidade a partir da ficção.


Borges e o jogo entre realidade e ficção

Borges foi mestre em embaralhar as fronteiras entre o mundo real e o inventado. Ao incluir nomes de filósofos e escritores reais ao lado de autores e obras fictícias, ele cria um efeito de verossimilhança que confunde o leitor. Afinal, se algumas referências são verdadeiras, por que não seriam todas?

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius é uma obra para ser admirada pelo engenho e pela ousadia intelectual. E mesmo sendo uma leitura densa é o tipo de leitura que fica ecoando na mente, um lembrete de que até o que consideramos “real” pode ser uma construção tão frágil quanto o mundo fictício de Tlön. E com certeza é uma obra precursora de muitos temas atuais em filosofia, ciência e até cultura pop (pense em Matrix, Black Mirror ou a ideia de fake news).

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